Um café

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Lembro do cheiro torrado do café preto. Lembro do barulho que fez a térmica ao servir.

Lembro de ouvir passos antes de ver o vulto de alguém que acabara de passar.

Lembro do frio daquele gélido e estreito corredor de paredes duplas e pálidas.

Ele estava ali, logo à frente, alto, esguio, vestido de preto, escorado de lado na parede com um copo de café na mão, rindo baixinho, sorrindo pra mim.

Me olha densa-mente…

Seus olhos castanhos se fixam na minha mente, junto ao cheiro quente do café.

As Botas

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Marrom bem desbotado,

um pouco de terra vermelha seca no couro já amaciado, marcado,

as solas com as marcas do pisar, desgastadas no dia-a-dia.

As botas.

As botas do homem forte do campo,

guerreiro que aguenta intempéries e que, cedo, ceva o mate, passa o café, calça as botas e vai pra atividade rotineira de cuidado do campo.

As botas que marcam a lida, que protegem e põem respeito.

As botas de quem respeito.

Livro “Justiça Restaurativa”, Howard Zehr

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Em 2014, comprei este livro da minha colega do curso de direito. Ela estava concluindo o TCC sobre Justiça Restaurativa e eu estava fazendo um curso de Formação em Justiça Restaurativa na FADISMA.

Ainda que formada como Facilitadora em práticas restaurativas, na época envolvida com meu TCC sobre a APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), e depois com os estudos pra OAB, ainda não tinha focado e nem dado o devido valor que a Justiça Restaurativa merece.

Agora, pude ler este livro do Howard Zehr, onde ele explica o que é Justiça Restaurativa, como é, e para quem. Tenho certeza de que a JR é uma forma alternativa de resolução de conflitos revolucionadora, que tem, e que terá ainda grande potencial nas mudanças do sistema criminal no país e no mundo. Continuar lendo

HAITI

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Terminei ontem de ler o livro HAITI, a Soberania dos Ditadores, de Ricardo Seitenfus.

O livro trata da história do Haiti na década de 90, principalmente até 1994, quando Seitenfus havia retornado da missão de paz no Haiti como observador componente da OEA. Ele relata o tenso e dramático período vivido pelo povo que teve seu presidente Aristide, que tinha sido eleito democraticamente, deposto pelo golpe militar, e ficou nas mãos de ditadores monstros. Continuar lendo

Inquietações

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Naquela noite havia chovido, ainda podia ouvir algumas trovoadas, certamente choveria mais um pouco durante a madrugada. Em seu quarto escuro e silencioso, podia ouvir junto ao pio de uma coruja nas árvores perto de sua janela, o som dos caminhões passando no asfalto ao longe. Não estava frio, mas também não estava calor. Pelo vidro entreaberto da janela sentia entrar um arzinho fresco de chuva e, como já era agosto, uns três edredons e meias eram suficientes. Nas mãos uma xícara de chá de camomila, mais para agradar do que para aquecer. Continuar lendo

Quem se vê no calçadão

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No piso áspero, frio quando à sombra e quente queimante quando ao sol, entre as lajotas, as marcas, os vincos, as raízes, as pessoas que disputam o chão. Em uma calçada, no centro de uma cidade como Santa Maria, há muito mais do que passos apressados, passos de sapatos lustrosos passando na pressa cotidiana, passos de saltos altos elegantemente parando de quando em quando na frente das vitrines.

Se passa distraído finge que não vê, mas se ver, vê uns pezinhos descalços ou com um chinelinho velho.

Esses pezinhos sujos, pequeninhos e amarelinhos, caminhando rapidinho pelo calçadão, juntos aos olhinhos pidões de seus donos indiozinhos e indiazinhas. Mas o que mais fazem esses pezinhos é brincar, ali mesmo, com seus irmãozinhos, não importa se o chão do calçadão está todo sujo, é o que eles têm, é o que eles fazem.

Dois, três, quatro, cinco, seis pares desses pezinhos amarelinhos e sujos brincam ao redor das cestinhas de palha, cocares, penas e macelas, no calçadão de Santa Maria. Passe e repare.

Inspirado nas crianças indiozinhas que sempre estão no Calçadão de Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Por Bibiana Rabaioli Prestes

Crédito da Fotografia: Lucas Ideias.

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O menino da carrocinha de lixo

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Havia um menino que todos os dias passava no mesmo lugar junto com seu pai. Observava tudo e todos ao redor antes de segurar as rédeas do cavalo que puxava a carroça sob ele, para seu pai, num movimento rápido e ágil que estava acostumado a fazer, trancando a respiração, entrar em mais um contêiner de lixo.

Procurava ele ali uma esperança pra um futuro incerto, que só com os materiais coletados tinha, talvez, a oportunidade de conseguir. Papeis, plásticos, papelão… — Filho! — exclama o pai — Veja só, encontrei um óculos! E os dois riem colocando o óculos e fazendo caretas.

Mas o óculos não escondia o olhar distante do menino que ainda segurava as rédeas para firmar a carroça em plena ladeira da Floriano Peixoto, observando as pessoas que passavam na calçada.

O que será que ele pensava? Será que ele pensava que estar com seu pai pela cidade toda, de contêiner a contêiner, era como uma aventura? Será que ele olhava as pessoas na rua e se imaginava no futuro como algumas delas, levantando cedo, vestindo uma camisa, sapatos, pegando sua pasta e indo trabalhar, no caminho passando na padaria para comprar um café? Ou ainda, indo para a faculdade? Enfim, o que se passa pelo pensamento de um menino carroceiro?

Inspirado nas crianças que trabalham na coleta de material reciclável em carroças em Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Por Bibiana Rabaioli Prestes

Rotina e Saudade

A água do chuveiro estava tão quente que sua pele branca estava ficando vermelha. Mas ela não se importava. Cada forte gota d’água que sentia cair nas costas era reconfortante. Parada por alguns minutos embaixo d’água, abraçada a si mesma, procurava dissipar da memória o dia turbulento e relaxar. Enquanto observava suas mãos avermelhadas pelo calor da água, as unhas pintadas de azul turquesa, pensava: – Ele está há 18 horas de viagem daqui.  Continuar lendo